O Que É Mais Difícil: Ser Ou Ter?
Vivemos em uma época que valoriza resultados rápidos, fórmulas mágicas, receitas de sucesso para tudo: dinheiro, beleza, carreira, felicidade. Há quem ofereça um “manual de vida perfeita” como quem vende um eletrodoméstico. E quem não se encaixa nesse modelo é, muitas vezes, visto como alguém que falhou — ou que está atrasado.
Mas ser não é um produto final. É um processo.
É difícil “ser” hoje porque ser exige presença, escuta, reflexão, contramão. Ser não combina com ansiedade de vitrine. Enquanto o “ter” pode ser exibido e mensurado — saldo bancário, corpo malhado, seguidores, diplomas — o “ser” exige profundidade. E profundidade não se compra pronta na prateleira.
O curioso é como as pessoas, mesmo com boas intenções, insistem em nos dizer como devemos viver.
“Você precisa mudar seu jeito.”
“Faça assim e você vai conseguir.”
“Seja mais isso, menos aquilo.”
Há sempre alguém pronto para corrigir, opinar, moldar. Poucos se contentam em aceitar o outro como ele é. É como se houvesse uma receita única para ser feliz — e quem se recusa a segui-la parece perigoso ou ingênuo.
Querem que sejamos aquilo que esperam, não aquilo que somos.
Vivemos numa cultura que forma consumidores em vez de cidadãos. Que ensina a ter, mas não a ser. Prefere oferecer opiniões prontas em vez de incentivar o pensamento próprio. Afinal, é mais fácil vender uma receita de sucesso do que convidar alguém a refletir sobre sua própria finitude.
A mesma dificuldade de aceitar quem somos se traduz em não saber conviver com o diferente.
Discordar virou motivo de inimizade. Questionar ideias passou a ser visto como ataque pessoal. É mais fácil cancelar do que dialogar. Mais confortável ficar entre iguais do que aceitar o risco de ser confrontado.
Respeitar a ideia contrária não significa concordar com ela. Significa reconhecer a dignidade do outro em pensar diferente. E isso exige maturidade — uma qualidade rara em tempos de urgência e polarização.
Talvez o maior paradoxo de todos seja esse: passamos a vida acumulando “ter” — bens, títulos, conquistas — mas ninguém nos ensina a morrer.
Ninguém nos prepara para lidar com a finitude, com o fato inescapável de que vamos perder. Perder pessoas, perder forças, perder certezas — até perder a própria vida.
A morte continua sendo um tabu. Algo para varrer para debaixo do tapete enquanto buscamos a juventude eterna e a felicidade constante.
Mas é justamente lembrar que somos finitos que dá sentido ao “ser”. Quem reconhece a morte aprende a valorizar o instante. Aprende que ter é bom, mas é passageiro. Aprende que ser é o que nos acompanha até o fim.
Não é errado querer ter. Mas talvez valha a pena perguntar: o que estou sendo enquanto busco o que quero ter?
Em vez de acumular mais listas e receitas de vida perfeita, que tal praticar um pouco mais de escuta? De aceitação? De respeito?
Porque no fim — quando tudo o que temos nos for tirado — só nos restará o que fomos.
Na correria insana dos dias atuais, nem sempre dá para viver com profundidade o tempo todo. Mas de vez em quando vale — e muito — abrir esse espaço: desacelerar, refletir e lembrar quem somos de verdade.

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